Operacionalmente desorganizadas, estrategicamente confusas

Por Ivan Postigo

O que leva empresas a se apresentarem operacionalmente desorganizadas, taticamente perdidas e estrategicamente confusas com tanta informação e tecnologia à disposição?

Tenho feito essa pergunta e a resposta costuma levar a um ponto: falta de qualificação profissional.

Estranho, é impossível que todos na empresa apresentem essa deficiência, mas…

As técnicas de gestão não mudaram tanto, a ponto de criar barreiras tão significativas para a evolução empresarial.

Algumas até são negligenciadas por conta da simplificação e engessamento em softwares.

É verdade que os modelos de PPCP e apuração de custos, entre outros, podem ser customizados, mas de maneira geral seguem a formatação previamente estabelecida pelo fornecedor, quando não são precariamente conduzidos em planilhas eletrônicas.

Não compliquemos, tratemos do débito e crédito na contabilidade. Quantas pessoas, envolvidas no processo administrativo, dominam esse conceito?

Um mistério desvendado apenas com horas de exercícios e aplicações. Que barreira é essa que foi levantada?

Nosso modelo mental nos diz: – Isso é um negócio difícil. Muito complicado para entender.

Decorar a tabuada também era, não?

Regrinhas contábeis criadas pelo Monge Luca Paccioli, que viveu entre 1475 e 1517, ainda se mostram um mistério para profissionais preparados para gestão, enquanto crianças com menos de cinco anos de idade usam computadores e navegam pela internet.

Com dois anos de idade já conhecem os controles remotos e escolhem e acionam seus CD preferidos. Outro mistério?

Sim, a forma de aprendizado.

A máquina de escrever exigia horas de treinamento nas escolas, hoje, a garotada quando têm acesso a um computador não têm a menor timidez e dificuldade frente a um teclado. E, como num passe de mágica, aprendem sem muitas orientações em datilografia.

Falar ao telefone exigia desembaraço, hoje, o celular com suas funções e teclas não assusta nenhuma criança, alias é um brinquedo!

Brinquedo, essa é a palavra mágica!

Crianças aprendem brincando. Uma questão para reflexão, pois com pouca orientação e interferência descobrem o mundo e dão um toque pessoal.

Impacientes, se irritam quando não sabemos ensinar ou não conseguimos acompanhar seus raciocínios e velocidade de aprendizado.

Para a criança, a barreira é o acesso, tendo, um mundo a ser investigado.

Do processo estratégico, passando pelo tático e chegando ao operacional, percebemos que nossa técnica de ensino e aprendizado precisa ser repensada.

Quanto mais informatizada a operação, mais distante ficamos da realidade. O domínio de telas e teclas não significa domínio da ciência. A facilidade de cálculo e de operação não pode nos levar à negligência dos detalhes e significados.

Estamos eliminando perguntas básicas, com isso ficando sem respostas.

Da época de estudante, morando em república, vem uma lição:

Acostumados a “receber tudo na mão”, enquanto vivíamos com nossos pais, não sabíamos fritar um ovo.

Resolvemos fazer um arroz, então um dos amigos trouxe a receita: Duas xícaras de água para cada xícara de arroz.

Um desastre. Duro, nem periquito comia!

Com o tempo, conversando com as pessoas, olhando as panelas, descobrimos os erros: fogo alto, panela destampada…

Algumas horas de farra na cozinha e alguns risotos se tornaram famosos.

Com tempo, passaram a ser preparados com o arroz especial, para essa finalidade.

Sabíamos onde comprá-lo, como escolhê-lo e como cozinhá-lo, mexendo sempre para não grudar no fundo.

Em pouco tempo, todos sabiam se virar em meio a tantas receitas.

O segredo do aprendizado começou com atenção especial à fase operacional. É nesse ponto que avaliamos todo o processo e conseguimos clareza na condução.

Por essa razão, precisamos aprender a aprender, para realizarmos o passo seguinte fundamental que é aprender a ensinar.

As escolas informam, educam, mas não treinam, tarefa dedicada ao campo, ao mundo prático. Há uma separação de papéis que precisa ser corrigida: levar a escola ao campo e trazer o campo à escola.

Isso não elimina, como gestores, nosso comprometimento com a difusão de informações, técnicas e preparação dos colaboradores.

Abro um parêntesis para uma frase que me acompanha na carreira: “antes de pedir a alguém que faça alguma coisa, você deve ajudá-la a ser alguma coisa”.

Para nós, da Postigo Consultoria, nossas maiores conquistas não estão relacionados às empresas que ajudamos a superar barreiras e dificuldades, nem às pessoas que ensinamos diretamente e indicamos à promoção, mas sim àquelas que aprendem conosco, sem saber disso, e que ensinamos, sem nos darmos conta.

Sem esse comprometimento, teremos equipes operacionalmente desorganizadas, taticamente perdidas e gestores estrategicamente confusos, com reflexos nas empresas e nos seus resultados.

Fonte: www.postigoconsultoria.com.br

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