Reestruturação empresarial e a redução do elefante

Por Ivan Postigo

A contabilidade gerencial alcança poucas vezes a prática, ainda que os discursos sejam interessantes.

Naquela paradinha para o almoço, com a “turma de sempre”, certa vez, um amigo passou na banca e comprou uma revista. Tinha uma matéria sobre elefantes, com fotos espetaculares. O foco era o risco de extinção desses animais, que já não encontram espaço para sobrevivência.

Ele leu alguns trechos em voz alta, então comentei: – A velocidade das perdas tem se mostrado maior que nossa capacidade de proteção. Temos que aplaudir os esforços e fazer o que for possível, mas a projeção não me agrada. O elefante, principalmente, por seu porte, precisa de grandes áreas para movimentação.

Carlos, brincalhão e cheio de idéias pouco aplicáveis, disse: – Ora, diminui o bicho!

Assim são muitas soluções indicadas para problemas empresariais: Diminui o bicho – a empresa.

Uma parte dos negócios é vendida, mercados são abandonados, pessoas importantes, mas com salários mais altos, dispensadas, linhas de produtos são desativadas, enfim, um novo recomeço. Diminuindo o bicho.

Como você imagina que se sente o cliente que foi “abandonado”? Ele comprava seu produto, mas agora não o tem mais.

Quase todo mundo dirá: – Chateado!

Vou lhe dizer uma coisa: – Ficará chateado se você for o único fornecedor, caso contrário, como diz a música, “To nem ai”.

Bom, mas com esforço, depois de alguns anos, a empresa é colocada nos trilhos e volta a bater nas portas dos “abandonados”. Sabe qual será a resposta: – “To nem ai”. Sabe por quê? Você não está mais lá – no grupo de fornecedores.

O seu lugar na prateleira, na vitrine, no estoque, na composição do produto já foi tomado há muito tempo. Sabe quanto tempo leva para substituir um fornecedor hoje em dia? Para quem costuma fazer pesquisas e buscar alternativas constantemente, nada!

Nossos modelos de gestão carregam um péssimo vício: dão pouca ou nenhuma atenção aos conceitos de margens de contribuição. Com isso fica difícil avaliar os efeitos e importância de campanhas promocionais, vendas com descontos progressivos, o impacto da desativação de linhas de produtos, entre tantas possibilidades.

Nesse sentido, os contadores, presentes em todas as empresas, contratados ou terceirizados, têm enorme contribuição a dar, mas infelizmente, por questões culturais – nossos modelos de gestão – estão mais voltados aos aspectos fiscais do que gerenciais.

A contabilidade gerencial alcança poucas vezes a prática, ainda que os discursos sejam interessantes. Essa é uma bandeira que precisa ser agitada com mais força pelos profissionais da área, para que nossos gestores a abracem.

Já ouvi muito, diretores dizendo: – Não sei o que acontece, quanto mais vendo mais prejuízo tenho!

Uma análise cuidadosa mostra que, na maioria dos casos, o problema é basicamente falta de conhecimento. Os cálculos estão errados.

Para essa empresa, que utiliza custo padrão, não importa o quanto ela venda, o custo unitário apurado será sempre o mesmo. Ocorre que os custos fixos não acompanham o volume de produção na mesma proporção, como os variáveis. Ao concederem, muitas vezes, descontos progressivos, para venda de volumes maiores, criam essa falsa imagem. As variações do custo padrão não são apuradas porque desconhece o procedimento.

Isso costuma induzir a redução da empresa, com a desativação ou venda de linhas de produtos.

A questão do custo fixo é determinante nesse processo. Este não cai na mesma proporção da redução do volume de produção. Não raro, passa a ter maior peso por unidade vendida, e, principalmente, no cômputo geral dos resultados.

Nesse sentido, Carlos, meu amigo, não conseguiu indicar uma boa solução mandando “diminuir o bicho”. Este, quando pequeno, se torna mais rápido e, relativamente, come mais do que o grande.

ivan@postigoconsultoria.com.br
www.postigoconsultoria.com.br
Twitter: @ivanpostigo
Fonte: Administradores.com
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