Não é brinquedo, não

J.C. Buldrini

Seja no treinamento para executivos ou como terapia após um dia difícil, os blocos do Lego estimulam a criatividade

Quando os 300 funcionários da Schneider Electric Brasil reuniram-se em fevereiro, em um hotel do litoral paulista, para integrar seus departamentos e reforçar a cultura da empresa, estavam preparados para assistir a palestras e participar de dinâmicas de grupo. Só não esperavam que, faltando pouco mais de uma hora para o encerramento do evento, fossem orientados a se dividir em 30 grupos e representar sua visão de uma cidade sustentável – com blocos de Lego. Uma hora depois, torres, fábricas, carros, árvores e ruas emergiam das mesas. Uma visão comum, montada peça a peça, com animação de torcida. “Todo mundo se envolveu naturalmente. Foi uma troca de experiências e conhecimentos em que todos estavam descontraídos, mas muito concentrados em expressar uma ideia”, diz Daniele Miranda, coordenadora de treinamento e desenvolvimento para a América do Sul, que participou da atividade. A empresa ficou tão empolgada com o resultado que promoveu a exibição dos dioramas para o restante dos funcionários. Como o desafio ganhou tom de brincadeira, a experiência provou ser mais marcante para os participantes e virou assunto de corredor.

Esta é a chave para o sucesso do Lego. Qualquer pessoa pode brincar com os blocos e, ao fazer isso, exercitar sua capacidade de estabelecer conexões e desenvolver seu potencial criativo. Um bloquinho é apenas um bloquinho. Mas se alguém usá-lo para criar um carro, um elefante ou a Angelina Jolie, é isso o que ele passa a ser. É uma versão mais simples dos avatares de mundos virtuais, que independe de computadores para existir e faz uso da mente e do corpo. Mais: dá para “brincar” sozinho ou coletivamente. “O Lego remonta ao mundo infantil e por isso pode resolver situações que seriam um problema para o grupo”, afirma José Francisco da Silva, diretor de RH e Tecnologia da Lego Zoom, que representa no Brasil o braço educacional da companhia dinamarquesa responsável pelo jogo. Pessoas de natureza introspectiva ou com dificuldade para se expressar encontram um canal para se soltar. “Usando um bonequinho, uma casinha ou vários bloquinhos, você mostra o que quiser. E sem medo de ser ridicularizado porque não sabe desenhar ou não sabe falar muito bem”, diz Silva. “Ali, você está brincando.”

A brincadeira é um estímulo para os neurônios, criando pontes para comunicar ideias. Para quem não tem o hábito de expressar conceitos, é uma ferramenta menos assustadora do que papel e lápis. Como os blocos se encaixam para criar formas, estimulam o pensamento encadeado. Não é à toa que engenheiros, arquitetos e criadores de sistemas estão entre os maiores fãs de Lego – formando comunidades que hoje somam mais de 65 mil integrantes e espalham peças pelo globo. Atualmente, há 63 blocos de Lego por habitante no mundo.

“Tem dois momentos em que o Lego funciona para mim: quando quero montar um kit para me divertir e quando estou estressado”, diz Wagner Cavalli Rodrigues, coordenador de projetos de sistemas. “Começo a mexer com as pecinhas e logo o estresse vai embora.” Ele começou a brincar com Lego na infância, mas ficou afastado por muitos anos, até o nascimento dos filhos, que o levou a reviver a febre – com fervor renovado. É o caminho que muitos viciados em Lego percorrem, segundo Peter Espersen, responsável pela comunidade online do Grupo Lego. Os fãs desenvolveram até um jargão para se referir a esse período em que os blocos caem no esquecimento: “dark ages”, o período sombrio. “A maioria brinca com Lego na infância, depois deixa de lado na adolescência. Quando os filhos nascem, volta a brincar e vira fã para a vida toda”, diz Espersen, que em julho vem ao Brasil participar da ExpOn, um evento de mídia social.

Com os meninos chegando a 10 e 13 anos, Rodrigues encaixa-se com perfeição neste perfil e faz valer o lema de que família que monta Lego unida, permanece unida. Seu desafio atual é montar um sistema automatizado para trem elétrico com a família, que passa muitos finais de semana inventando construções. Como fundador do LUG – Lego User Group Brasil, uma comunidade digital que reúne mais de 1,3 mil membros, ele planeja para dezembro um evento para que fãs apresentem suas versões de uma minicidade. “O que mais atrai no Lego é que você pode fazer praticamente tudo, as peças de um kit se encaixam em todos os blocos do outro kit. O que serve para fazer uma casa vai servir para construir um carro”, diz Rodrigues.

Fonte: epocanegocios.globo.com

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