Era do descartável

Mundo Corporativo

Sandra Nagano

Esta coluna é publicada as Quintas Feiras

CONSUMO

Por volta da década de 30 do século passado, alguns grandes empresários tiveram uma simples e mirabolante ideia que acabou por mudar nossa relação com os produtos que consumimos hoje em dia e a forma como nos relacionamos com as pessoas e coisas. Eu falo da obsolescência programada, ou para simplificar, da descartalização. Essa prática empresarial consiste em fazer com que alguns bens de consumo ou itens que os compõem tenham um pequeno prazo de validade. Desta forma, com produtos mais frágeis, os consumidores passam a comprar o produto com mais frequência (como as lâmpadas) ou, em muito casos, adquirir as novas versões do mesmo produto (como os programas de computadores). Além de intensificar a sociedade do consumo, essa invenção do capitalismo industrial acabou por introjetar em nossas mentes uma concepção de que tudo que não tiver mais utilidade ou tiver algum problema de funcionamento poderá ser facilmente descartado, já que novas versões serão logo produzidas.

A fila anda

Pode parecer estranho à primeira vista, mas esse pensamento já invadiu o nosso mundo corporativo. Um dos efeitos sintomáticos desta concepção dentro do mercado de trabalho é a alta rotatividade de funcionários dentro das empresas, já que elas estão em uma busca permanente por novos talentos e os talentos estão em busca de melhores oportunidades na carreira e de salários mais rechonchudos. Em resumo, os empregadores estão se desfazendo (“descartando”) facilmente de colaboradores que não atenderiam as exigências de determinados cargos, pois sabem que há vários talentos (“novos produtos”) no mercado. Por outro lado, os trabalhadores estão se qualificando cada vez mais (“se atualizando”) para conseguir empregos melhores. Ou seja, hoje, facilmente as empresas se desfazem de colaboradores, bem como preenchem suas vagas, assim como os trabalhadores trocam cada vez mais de empregos

TURNOVER

1 Mas é claro que esse fenômeno só foi impulsionado no Brasil porque o País está caminhando em direção ao tão sonhado pleno emprego, ou seja, quando o índice de desemprego chega perto do patamar de 5% (hoje, nosso índice gira em torno de 6%). Se por um lado é uma notícia pra lá de boa, por outro, ela tem feito com que a taxa de turnover dentro das empresas crescesse a cada ano. Isso porque há mais demanda e oferta de empregos. Para esclarecer, no corporativês, turnover significa a taxa de rotatividade dentro da empresa. Ou seja, o índice de contratações e demissões na companhia. Atualmente, a taxa média de rotatividade no Brasil é de 36%, segundo dados do Dieese. Somente entre os jovens, a taxa cresceu 75,3% nos últimos 10 anos, de acordo com o Ipea.

RETER TALENTOS

2 Um dos grandes problemas encontrados pelas empresas hoje é a retenção de talentos dentro da organização. Com mercado aquecido, eles alçam voos rapidamente em direção de outras companhias que oferecem melhores benefícios. Se a ideia é fazer com esses talentos permaneçam e amadureçam dentro da organização, as empresas precisam mudar o pensamento do “descarte” e investir nos possíveis talentos que compõem o seu quadro de funcionários. Não existe fórmula mágica, mas já é um bom início começar a equacionar os níveis de motivação e satisfação dos colaboradores, a transparência nas relações de trabalho e as perspectivas de crescimento profissional. Muita gente chama a rotatividade de funcionários de “oxigenação”. Pode até ser por algum momento, mas quando o turnover é alto e constante, pode-se chamar isso de custo e, especialmente, grande instabilidade organizacional.

HORA DO CAFEZINHO

3 Segundo pesquisa da Consultoria em Produtividade Triad, 80% dos trabalhadores gastam até três horas diárias do expediente com atividades que não nada tem a ver com a sua função. Isso inclui, especialmente, o tempo gasto em redes sociais na Internet. Todo mundo sabe que ninguém consegue produzir ininterruptamente, portanto, é muito importantes pequenas pausas (não digo três horas!) para arejar a mente e esticar os músculos. Por isso, sou uma defensora daquela hora (minutinhos) do cafezinho. Mas como o mantra central de uma empresa convencional continua sendo “tempo é dinheiro”, esse dado soa bastante assustador. Para as companhias que pretendem evitar esse tempo improdutivo, Marcelo Abrileri, presidente do site de empregos Curriculum e especialista em recolocação profissional, dá algumas dicas que vão desde o veto total às páginas de relacionamentos até o contrário, a liberação desses sites, mas sob a condição da criação de uma cultura de responsabilidade e bom senso entre os colaboradores. Ele também propõe o estabelecimento de horários específicos para o acesso das redes sociais. Ou ainda, a liberação das páginas de acordo com o nível hierárquico ou por departamento. Para mim, cabe ao colaborador o bom senso…

MINUTO SABÁTICO

4 Hoje, a minha indicação é um reality show um tanto quanto diferente. Isso porque não envolve um prêmio milionário no final e nem o enclausuramento de participantes bonitos e sarados. É o Undercover Boss, que na versão brasileira recebe o nome de O Chefe Espião. O programa é norte-americano e pode ser visto na TV paga brasileira. Mas alguns episódios podem ser encontrados na Internet. Trata-se de um programa no qual o dono da empresa se disfarça, por uma semana, de funcionário de baixo escalão da própria organização. A ideia é fazer com que o executivo sinta na pele o trabalho duro de seus colaboradores (como, por exemplo, catar lixo), bem como as dificuldades e problemas em determinado departamento. E ainda, em alguns momentos, ouvir críticas duras sobre ele mesmo e sua empresa. Uma forma bem extrema de aproximação com os colaboradores!

CORPORATIVÊS

5 Tem algumas siglas que alguns executivos adoram dizer em reuniões. Uma delas é o P&D, que significa o período gasto pela empresa em Pesquisa e Desenvolvimento de um produto ou projeto, por exemplo.

Sandra Nagano

Jornalista da área econômica

Fonte: O Povo Online

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