O segurança do banco

Por Kelly Gallinari

Esta Coluna é publicada as Segundas Feiras

É tanta gente por aí. Gente de todo tipo e todo gosto. Gente que gosto e que desgosto. Mas aprendi a não desprezar o que não aprecio. Isto é julgamento burro. O que não aprecio pode, no mínimo, ensinar o que não fazer e, se olhado no detalhe, pode ter riquezas escondidas. Mas nem todo mundo tem tempo e paciência para este olhar detalhado.

Apreciem a história de um segurança  de banco. Sim, até pelo ofício que tem, ele olha nos detalhes, sempre. E tem muito
o que dizer.

Eis nosso querido Ronaldo:

“Sou Ronaldo, o segurança do Banco Itu. Trabalho aqui há 34 anos e sou um cara realizado. Hoje, coordedo a equipe e sempre estou de olho para que tudo saia ‘nos conformes’. Mas melhor que o trabalho, são os clientes. Os clientes são excepcionais. Sim, nestes 34 anos, aprendi técnicas de segurança como ninguém, mas, mais do que isso, aprendi a ser gente de verdade. Com quem? Com os clientes do banco. As filas são riquíssimas em aprendizados. Alguns inusitados. Vou contar para vocês.

Regrado e organizado, todo dia 5 de cada mês, às 10h, Peterson vai ao banco para pagar suas contas. Há 28 anos, um hábito irrevogável. Sempre é o primeiro da fila. Teve um dia, que quando chegou há havia outro em seu lugar. Peterson foi embora e voltou no dia seguinte. Não soube lidar em ser o segundo. Para mim, algo banal. Para Peterson, algo inaceitável e, assim, eu o entendi.

Assim como Peterson, outras personalidades aparecem por lá na mesma data e no mesmo horário. A fila do banco tornou-se algo familiar. As mesmas pessoas, objetivos semelhantes e até troca de confidências e histórias. Uma história que começa hoje, termina na fila da semana que vem. Ou na outra. Algumas não terminam nunca.

O melhor amigo de Peterson, lá na fila do banco, é o Dr. Mendonça, um advogado aposentado com manias bem particulares. Dr. Mendonça sempre aparece neste dia para receber sua aposentadoria. Todo mês reclama que o valor é baixo e que é impossível viver com tal salário. Pete não entende as reclamações repetitivas, pois Dr. Mendonça é saudável, ainda novo e poderia ter uma nova ocupação. Com certeza, aumentaria a renda mensal e preencheria a cabeça, que não é pequena, com o novo. Mas Dr. Mendonça é, realmente, ressentido e conformado. Culpa o Estado pela ‘ninharia’ que recebe e prefere atribuir suas frustrações ao governo. É a desculpa dele para ser infeliz.

Tem também a Srta. Perla. Ah, a Srta. Perla. Uma belezura de mulher. Ela é secretária do clínica odontológico aqui da esquina e vem sempre quitar os boletos. Ela é tímida. Tem potencial, mas é tímida. Ouvi ela dizendo para uma amiga, que veio com ela à fila, que está terminando a faculdade de Turismo. Neste mesmo dia, ela contou que não estava contente com o emprego, mas que aturava porque não queria perder tempo procurando outro trabalho com o receio de não se dar bem por lá. Srta. Perla é acomodada e tem medo do novo. Tão nova! Esta na clínica há 5 anos e lá, mesmo com pouco salário e com uma chefe mal educada, tinha certeza que sabia fazer as tarefas direito e que nada sairia errado.

Figurinha carimbada é a Dona Tita. Apesar de vim todos os dias ao banco, não sei o nome dela ao certo. Dona Tita é como é conhecida por aqui. Ela mora sozinha e nem tem conta no banco, mas aparece por aqui diariamente. Ela chega, cumprimenta todo mundo e, às vezes, traz bolo que ela mesmo confeccionou. Dona Tita perdeu todos os familiares, uns morreram e outros foram embora e, desde então, mora sozinha. Desde os 64 anos, convive com a notícia de que tem uma doença ruim. Ela não comenta muito, ouvi isso de um outro segurança aqui do banco. Hoje, com seus 72 anos, tinha muitos motivos para ser infeliz, mas Dona Tita é a mulher mais feliz que conheço. Ela resolveu ser feliz. Bacana isso, não é? Ela, simplesmente, decidiu e, assim faz. Mora vizinha do banco e resolveu fazer do povo daqui seus amigos. Todos a adoram. Quando vai embora, caminha no parque, duas quadras daqui, por recomendação médica. Sempre está a cantar e a sorrir. Por opção.

E o Malandro? Malandro é um cara engraçado. Ele é vendedor de carros da loja do centro. Já devem ter entendi o apelido, não é? Eu já comprei carro lá e, realmente, é preciso estar atento às negociações. Malandro é mais que malandro, é ninja no jogo de números e convence todo mundo que a compra, mesmo com preços horrendos, é vantajosa. Este é meu camarada Malandro. Ele aparece no banco umas duas vezes por mês. Vem fazer depósito dos lucros da loja. É impossível deixar de notar sua presença. Usa roupas chamativas e adora bater um papo. Rápido e com argumentos duvidosos, mas totalmente convincentes. Ganha clientes ali mesmo na fila do banco. Malandro é bom de lábia e acredita no que vende. Independente do que vende. É, ele convence.

Já vi estes e muitos outros passarem por aqui. Às vezes, queria ser mais do que o segurança. Queria poder interferir. Ora ajudar, ora colocar limites, ora incentivar. Participar. Mas sou só o segurança. Escuto e vejo.”

Abraços e até mais, minha gente!

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