Na sala de aula, um retrato da crise europeia

Achei muito interessante o texto enviado por Valéria Maniero para o Blog da Míriam Leitão, Valéria tirou 40 dias de férias e folgas do seu trabalho no blog para uma imersão de aperfeiçoamento em inglês na Inglaterra.

Abaixo, o texto que ela mandou de lá para a  Mírian Leitão.

A italiana Giada, de 27 anos, faz curso de inglês numa escola particular em Reading, que fica a menos de 70 km de Londres. Está à procura de emprego. Foi parar ali, porque o namorado conseguiu uma vaga na universidade local, onde trabalha como pesquisador. Como a situação econômica italiana não anda bem, resolveu deixar Nápoles por um tempo e tentar a vida na Inglaterra.

Giada gostaria de trabalhar na área em que se formou, química, mas como o inglês ainda não está tão afiado, contenta-se com uma vaga em bar ou restaurante. Ficou sabendo que um deles, especializado em comida italiana, estava recrutando. Ficou de ir até lá para ter mais informações.

Giada não entende muito de economia, mas acha graça quando alguém fala que a Inglaterra também enfrenta problemas nessa área. Diz que na Itália não vê gente com sacolas nas mãos, saindo das lojas e dos shoppings, como se pode notar andando pelas ruas de Londres. Desconfia da tal crise que David Cameron tenta driblar. De qualquer maneira, acha que a sua Itália está num caminho melhor agora, pós-Berlusconi, e com Mario Monti à frente de um governo técnico.

Clara e Ramón são espanhóis, vêm de cantos diferentes do país que tem a maior taxa de desemprego da Europa – mais de 23%, segundo a Eurostat. Como Giada, querem um bom emprego; por isso, estudam inglês. O namorado de Clara já conseguiu uma vaga numa rede de fast food, mas ela ainda está procurando. Apesar de ser formada em arquitetura, também topa trabalhar em restaurante ou café. Com a crise na Espanha, Ramón, que é advogado, perdeu o posto de trabalho. Enquanto estuda inglês, participa de uma ou outra entrevista de emprego.

Nessa história, não tem nenhum grego e talvez isso seja simbólico. Enquanto italianos e espanhóis tentam se qualificar para encararem o difícil mercado de trabalho, que sofre as consequências da crise da dívida, alemães e franceses têm menos pressa.

Bruno, empregado sênior de uma multinacional, vai passar um tempo trabalhando na unidade da empresa na Inglaterra. Fala inglês com sotaque francês carregado e quer aprender mais.

Antes de morar na Inglaterra, Nathalie passou um tempo no Brasil, com o marido, que trabalha numa grande empresa. Durante muitos anos estudou inglês na Alemanha e agora resolveu dar continuidade.

Torre de Babel

Conheci os personagens dessa história quando aprimorava meu inglês na Inglaterra. Nas salas de aula, mais de dez nacionalidades. É difícil entender o jovem da China, mas ele se esforça para ser compreendido. Quando é perguntado sobre o sistema eleitoral em seu país, diz que nunca votou nem votará em 2012, ano de eleições. O representante do Camboja estuda inglês com afinco porque quer ser “um líder”.

É bonito ver a força de vontade de mulheres e homens do mundo árabe aprendendo outro alfabeto. E entre uma conversa e outra, a gente aprende muita coisa.

Algumas jovens moram na Inglaterra há alguns anos, como Ranya, do Egito, que usa o véu islâmico, casada com um engenheiro. Ainda não completou 30 anos e tem três filhos. Costuma deixá-los na escola e seguir para o curso de inglês. Diz que agora não dá para trabalhar, mas que gostaria de ter uma ocupação no futuro, ser professora.

Abdul, da Arábia Saudita, não gosta muito das aulas do período da manhã, ministradas por uma professora. A italiana Giada, apresentada no começo deste texto, quer entender o motivo. Começa a fazer perguntas, investigar. Chega à conclusão de que a antipatia está relacionada ao gênero.

Algumas jovens da Arábia Saudita preparam-se para o Ielts, teste de proficiência em língua inglesa. Uma delas precisa tirar uma boa nota, porque quer fazer uma especialização. Uma outra me pergunta se eu dirijo no Brasil. Digo que não gosto. Ela diz o que a gente já sabe, mas que impressiona do mesmo jeito. “No meu país, eu não posso”.

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