A hora e a vez dos juros

Miríam Leitão

A presidente Dilma enfatizou a palavra “tecnicamente” quando disse que não via razão para spreads tão altos quanto os brasileiros. Convenhamos, as taxas cobradas pelos bancos dos seus clientes, em qualquer modalidade de crédito, são gigantescas. Não têm qualquer relação com o que é praticado em outros países, às vezes pelos mesmos bancos.

O sistema bancário põe no balcão suas justificativas para o preço do dinheiro: no spread estariam embutidos o custo dos impostos, os gastos administrativos, o risco de inadimplência, o peso do recolhimento compulsório ao Banco Central. É verdade que os impostos são altos, o compulsório muito grande, e o risco de inadimplência aumentou um pouco. Com todos os noves fora, o que os bancos cobram “tecnicamente” não faz sentido.

O mercado bancário brasileiro é super concentrado. Cinco bancos são engolem a parte do leão da intermediação financeira. Isso é campo fértil para a inércia e os abusos. Há pouca transparência sobre taxas, tarifas, juros e contratos. Todos tratam mal os clientes. Estes são defeitos de um ambiente sem competição. Parecem tão iguais que dá até preguiça de trocar de banco quando sofremos desaforos.

O Banco do Brasil e a Caixa Econômica estão fazendo um movimento ousado de derrubar as taxas de juros. Está claro que fizeram isso porque a presidente mandou, mas se fizerem bem feito podem ajudar a criar um saudável ambiente de competição, num segmento em que a falta da concorrência provocou inúmeras distorções.

Não há almoço grátis. Os lucros do Banco do Brasil vão cair. O acionista receberá menos dividendos, seja ele o Tesouro ou o pequeno aplicador em ações do BB, mas algumas explicações do banco são bem razoáveis.
Os juros do cheque especial vão cair. Em qualquer lugar do mundo, a taxa do cheque especial é punitiva, exatamente para que o cliente não confunda saque a descoberto com renda. Se houver incentivo ao cheque especial será a contratação da bola de neve que rolou sobre outros países. O que o BB está dizendo é que, a partir de um determinado prazo em que o cliente está no negativo, a dívida será transformada em crédito pessoal que tem taxas menores mesmo. Está abrindo a chance de fazer de forma mais simples, o que os consultores financeiros sugerem à pessoa que se pendura no especial: transformar num empréstimo e programar o pagamento a juros menores. Outro caminho que o Banco do Brasil diz que seguirá é o de levar em conta o histórico do cliente. Nada mais justo.

A Caixa promete anunciar o corte nos seus juros taxas em breve. Aliás, como contou o Globo ontem, as duas instituições apostaram corrida para saber quem oferece mais rapidamente as menores taxas. Tecnicamente falando o que os dois disputam é quem agrada mais e mais rapidamente a presidente Dilma.

A CEF é 100% do Tesouro. Isso significa que se ela errar a conta será paga pelos contribuintes. Como disse, não há almoço grátis na economia; alguém paga a conta. Recentemente a Caixa fez uma grande trapalhada. Pagou caro para ser sócia de um banco falido. Quando o rombo apareceu, meses depois, a conta foi paga em parte pela instituição, em parte pelo dinheiro do público, administrado pelos bancos, no Fundo Garantidor de Crédito. Foi mais danoso do que a briga intestina na direção do Banco do Brasil.

O movimento dos bancos públicos de agitar o mercado bancário com o aumento da competição pelo crédito tem dois cenários possíveis. O perigoso: pode levar a prejuízos aos acionistas e contribuintes e incentivar o endividamento excessivo de famílias e empresas. O bom: pode ser o início do saudável, e sonhado, processo de reduzir o custo do dinheiro.

Vamos torcer pelo bom cenário.

Fonte: Blog do Míriam Leitão

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