Eu sou uma britadeira?

Por Lucídio Rodrigues Ferreira*

Lembro-me de que meu falecido pai, para mim o maior palestrante que conheci, contava esta fábula. Ele a atribuía a Jean de La Fontaine, fabulista do século 16, famoso por produzir contos nos quais os animais eram os principais personagens. Fugindo do seu tradicional, contou-me uma fábula em que o personagem principal era uma britadeira, e que demonstra bem como nossa motivação inconsciente interfere no nosso trabalho.

Diz a fábula…

Era uma vez uma britadeira, no alto de uma grande montanha rochosa. Lá executava seu serviço de transformar a grande montanha em pequenas pedras para utilização na construção de casas. As grandes ondas do mar batiam na montanha rochosa, produzindo uma leve brisa que batia na britadeira, refrescando-a do calor escaldante. Lá de cima a britadeira podia avistar o nascer e o pôr do sol, os animais no campo e contemplar as outras belezas da natureza. Podia também ver uma longa estrada que ligava um grande e lindo castelo a uma pequena aldeia.

Eis que a britadeira percebeu que todos os dias um rei saía desse lindo castelo e era carregado pelos seus serviçais em uma espécie de carruagem. Ao seu lado ficavam lindas mulheres que abanavam o rei com seus leques de plumas coloridas. Frutas eram servidas ao rei durante o percurso da viagem. Nesse momento a britadeira olhou para o rei, e lá de cima exclamou: “Isso é que é serviço. Olha que coisa mais boa. Sendo carregado por outros, rodeado de serviçais, de mulheres bonitas… Ah! Como eu queria ser rei em vez de britadeira”.

Veio imediatamente a fada madrinha, tocou na britadeira, e essa se transformou imediatamente no rei.

Como rei, queria agora todas as bajulações que lá de cima viu acontecerem. Pedia água, frutas, ser carregado de um lugar para o outro, e tudo o que lhe era de direito. E ficou feliz por um tempo. Mas, logo percebeu que algo o incomodava. Viu que por mais que o abanassem, o sol escaldante não dava tréguas. Tentava desvencilhar-se, porém sem êxito. Seus olhos ardiam quando o sol batia neles. Daí pensou: “É… parece que eu me enganei. Parece que ser rei não é tão bom assim. O sol é mais forte e imponente que o rei. Parece ser um trabalho mais gostoso de se fazer. Ah, como eu queria ser sol!”.

Veio imediatamente a fada madrinha, tocou na britadeira que era rei, e transformou-a no sol.

Como sol, sua principal diversão era queimar tudo que via pela frente, principalmente as pessoas. Gostava de ver por quanto tempo uma pessoa conseguiria ficar exposto a seus raios sem reclamar. Viu um lenhador sair de sua casa com seu machado. Ele estava acompanhado por seus dois filhos. Gostou quando todos colocaram a mão por cima dos olhos para protejer da luz que irradiava dele. Porém, quando ele estava pronto para lançar o mais fulgurante raio solar, uma nuvem grande veio e tapou a sua frente. Por mais que tentasse esquivar-se da nuvem, ela teimava em tapar seus raios. Foi aí que ele pensou: Ah! Esse negócio de ser sol é muito enfadonho. Parece que o serviço da nuvem é muito mais divertido. O que eu queria mesmo é ser nuvem!

Veio imediatamente a fada madrinha, tocou na britadeira que foi rei, agora era sol e a transformou em nuvem.

Como nuvem ela se divertia em não deixar o sol trabalhar. Gostava de tomar diversas formas e ver as pessoas olharem para ela e dizerem que se parecia com isso ou aquilo. Até que um dia, quando estava tomando certa forma veio o vento e a desmanchou. Tentou tomar outra forma novamente, mas veio novamente o vento e a impediu. Quando quis tapar o sol, vinha de novo o poderoso vento e a levou para longe do sol. Começou a observar o trabalho que o vento fazia. Arrancava árvores, derrubava choupanas, fazia grandes ondas no mar. Parecia tudo muito divertido. Como é de se imaginar, chamou a fada madrinha e disse: “Eu estava enganada esse tempo todo. O que eu realmente quero é ser vento”.

Veio a fada madrinha, já cansada de tanta indecisão e disse:
– “Você já observou que cada vez que muda de serviço, alguém vem e toma seu lugar? Você não consegue voltar a ser o que você era antes. Tem certeza que não está contente?”.
“Tenho certeza, senhora. O que eu quero mesmo é ser vento, pois é poderoso e seu trabalho é divertido”.
-“Pois bem, realizarei o seu pedido”, disse a fada madrinha, transformando a britadeira que foi rei, depois sol, e agora era nuvem, em vento.

Agora, como vento, parecia que havia achado o que queria fazer. Derrubava tudo que encontrava pela frente. Destruia vilas inteiras, árvores, desmanchava nuvens… Levantava as ondas do mar e criava ondas de dois metros. Fazia as ondas se arrebentarem nas rochas. Mas começou a perceber algo. Por mais que as ondas fossem altas e fortes, elas batiam nos rochedos e os rochedos nem se moviam. Criou uma onda enorme, de cinco metros, e a arremessou contra uma grande montanha de rocha e essa nem se moveu.

Chamou a fada madrinha, prometendo que seria a última vez que faria um pedido. Queria ser rocha. A fada madrinha perguntou por duas vezes:
– “Está consciente disso? Tem certeza do seu pedido?”.
– “Sim. Afinal, não deve existir nada tão forte como a rocha. Ainda mais, ela não precisa fazer quase nada, só ficar parada e sentir a brisa do mar”.
– “Então, seu pedido será satisfeito só por mais essa vez”, respondeu a fada madrinha, transformando-a em um imenso rochedo.

Finalmente, tudo indicava que ela agora estava contente. Como rochedo, gostava de exibir sua força majestosa. Afinal, parecia que não existia nada mais forte que ele. Gostava de mostrar poder, principalmente em época de tempestades, quando as ondas ficavam enormes.

Foi quando certo dia sentiu uma movimentação no alto de sua cabeça. Percebeu um barulho e sentiu algo começar a perfurá-la. Já podem imaginar o que é. Uma britadeira havia sido montada bem em cima dela.

E, assim, a britadeira que um dia transformou-se em rei, depois em sol, depois em nuvem, depois em vento e finalmente em rocha, percebeu quando não havia mais tempo de voltar atrás, algo que acontece também com profissionais que resolvem trocar constantemente de emprego. Ela era feliz e não sabia!

Voltando à nossa realidade, muitas vezes é exatamente isso que acontece conosco. Quando entramos num emprego novo somos felizes. Porém vamos deixando que os problemas sufoquem aos poucos nossa motivação. Ao invés de conscientemente tentarmos resolver os problemas, começamos a voltar a atenção para o que os outros estão fazendo ou conseguindo. Não defendo aqui a ideia de permanecermos sofrendo em nosso emprego atual, pois não existe maneira de você aplicar qualquer técnica motivacional se não estiver plenamente decidido com o que você está fazendo.

O que estou dizendo é que não devemos simplesmente trocar de emprego frente ao primeiro problema que surgir. Não raro, os problemas não estão no emprego, mas em nós mesmos. Se entendermos que os problemas que temos são oportunidades de nos reciclarmos, teremos uma ótima chance de evoluirmos. Quando resolvemos não enfrentar o problema e simplesmente trocar de emprego, perdemos essa grande oportunidade.

Que tal considerar em sua próxima reunião essa fábula com seus colaboradores? Um abraço a todos.

*Palestrante e escritor. Diretor da Vision Consultorias e Treinamentos, consultor de Atendimento e Gestão Empresarial

Fonte:RH.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: