Algumas reflexões sobre o discurso de Abílio Diniz

Abílio Diniz em evento da Endeavor

Por Pedro Paulo Morales

Após entregar o comando da controladora do Grupo Pão de Açúcar ao francês Casino, o empresário Abílio Diniz fez um discurso movido pela emoção, procuro aqui destacar alguns trechos para reflexão.

“Deus me fez forte… Vou seguir em frente, não sei como, mas vou” com essa frase ele mostra que sempre foi um empresário apaixonado pelo que faz e que deus sempre e que confia em deus, mostra em trechos de seu discurso lembranças de sua vida que são únicas na de um homem como o nascimento de um filho “Aqui nesta sede, nasceu minha filha Ana Maria, nos fundos da loja número um. Aqui desenvolvi minha carreira de empresário”, em outras partes de sue discurso Abílio diz que uma empresa apenas se torna forte quando consegue desenvolver bons valores e internaliza-los na cultura da empresa “Não chegamos até aqui sem bons motivos. Temos cultura e temos valores.” Diz ainda que mesmo não sendo mais o principal acionista do grupo vai continuar sendo o guardião do grupo e continua com garra para caminhar pela vida “No que depender de mim, vou continuar na defesa de tudo isso que nos fez grandes e dignos. Apesar de abalado pelos últimos acontecimentos, estou forte e sinto grande vontade de continuar melhorando como pessoa, progredindo como empresário e me aperfeiçoando como ser humano.”.

Abílio Diniz se sente magoado com os acontecimentos dos últimos tempos, triste e decepcionado com distorções de verdade e deixa um recado para seus sócios que mostra qu os colaboradores eram tratados nas suas empresas como uma família e neste ponto esta um dos fatores de sucesso do Pão de Açucar “Não posso exigir que os novos comandantes o exerçam à minha maneira, mas, posso pedir que não esqueçam que esta empresa é uma empresa familiar. Não porque foi fundada e pertenceu a uma família, mas, porque é uma família para quem trabalha nela.” , uma vez ouvi de um caixa de supermercado “Aqui é fácil entrar , o difícil é sair , me sinto bem aqui!” ao ser questionado por um outro rapaz que queria mandar um currículo para o Pão de Açúcar.

Abílio termina seu discurso dizendo que não quer tristeza, a transferência de controle é um fato normal e que não esta se despedindo “Sempre digo que há três coisas que detesto: cebola, despertador e despedida. Não façam de hoje um dia de tristeza. Considerem toda a emoção desta transferência de controle como algo normal. Temos de acreditar que a vida continua, que a vida é bela, que o mais importante é saúde e que, com saúde e com força, a gente vai buscar o que quer”.

Leia o discurso.

“Queridos acionistas desta companhia, queridos amigos,

Este é um dia muito importante para esta companhia, para mim e para a minha família. É o dia em que passo o controle do Grupo Pão de Açúcar.  Como todos sabem, o Pão de Açúcar foi fundado em 1948 pelo meu pai. Desde criança, trabalhei ao lado dele na doceira. Mais tarde, ao concluir a universidade, decidi aceitar sua sugestão e iniciar uma rede de supermercados. Aqui mesmo onde estamos hoje.

Pensei muito no que deveria falar hoje. Devido aos acontecimentos dos últimos tempos, fui tomado por mágoas, tristezas e decepções. Injustiças e distorções da verdade me atingem mais do que agressões claras e diretas. Negar meu sofrimento seria falso e muito pouco convincente.

Nos últimos meses, fui acusado de quebrar contratos e não cumprir o combinado. Estou aqui para provar que aquelas acusações eram falsas. Meu pai me ensinou que contratos devem ser cumpridos, tanto escritos quanto os verbais. A passagem de controle se deu pela manhã.

Estou sentido, mas, aqui não é o lugar para pedir apoio, compreensão, amizade e amparo. Agora não é hora de desabafos. Este é um momento de transição, momento no qual é importante apontar rumos e reafirmar valores.

Desde o início do Pão de Açúcar, nossas ambições eram grandes. Comecei a estratégia de expansão com empresas menores até chegar aos gigantes, como Ponto Frio e Casas Bahia. Hoje, somos a maior empresa de distribuição da America Latina. De 2008 para cá demos um salto – as vendas brutas cresceram de R$20,8 bilhões para R$52,7 bilhões; o lucro saltou de 299 milhões para 899 milhões. Desde a abertura de capital, em 1995 até hoje, o valor de mercado desta companhia multiplicou 30 vezes.

Somos hoje um dos maiores empregadores do Brasil, com 150 mil colaboradores. Gosto de pensar neles como  gente feliz e orgulhosa dessa companhia, a maior varejista do Brasil e uma das grandes do mundo. Aqui nesta sede, nasceu minha filha Ana Maria, nos fundos da loja número um. Aqui desenvolvi minha carreira de empresário e a filosofia de trabalho que ensino com orgulho aos meus alunos da Fundação Getúlio Vargas.

Esta filosofia foi desenvolvida neste prédio, com a colaboração de todos que aqui trabalham e trabalharam. Juntamente com a filosofia vieram os valores e a cultura desta empresa, que são a base de nossa força e de nossos grandes resultados.

Não chegamos até aqui sem bons motivos. Temos cultura e temos valores. Somos pujantes em números, em lucro, em imagem, em todas as coisas que são importantes para uma grande empresa do ponto de vista comercial.

Porém, somos importantes também na confiança que nossos clientes e colaboradores têm no GPA. No orgulho que nossos colaboradores sentem ao vestir a camisa do nosso time. Na certeza de que esta é uma empresa humana que valoriza a nossa gente. Uma administração que ajuda as pessoas a crescerem e que, sem descuidar da eficiência, compreende suas dificuldades e fraquezas, apoiando-as e dando elementos para superarem seus obstáculos. Somos a prova de que é perfeitamente possível ter grande sucesso empresarial sem deixar de ter consideração pelas pessoas, jogando limpo e acreditando no bem.

Sem qualquer falsa modéstia sei que contribuí de maneira essencial para tudo isso. Esta empresa foi construída com o meu DNA. Fui capaz de enfrentar desafios, desbravar caminhos, lutar incansavelmente, usar as derrotas como estímulo para novas vitórias e ao mesmo tempo ser amigo de meus colegas de trabalho. Todos sabem que não gosto de ser chamado de chefe ou patrão e muito menos Dr. Abilio. Gosto de me sentir rodeado por amigos e sou amigo de verdade.

Desde quando optamos por buscar um parceiro estratégico, já éramos uma empresa admirada e com forte saúde financeira. Em 2005, ao assinar o acordo com o Casino, o meu grande objetivo era dar liquidez às ações do meu pai para ele poder distribuir em vida aos seus filhos o patrimônio que conquistou com muito trabalho e inspiração. Isso foi feito, e deu muita alegria e satisfação ao “seu” Santos. O acordo me permitiria também trabalhar para o resto da minha vida, fazendo aquilo que sei fazer, além de dar liquidez aos meus herdeiros via mercado.

Acreditava que a compreensão, harmonia e amizade iriam durar para sempre.

Sigo como Presidente do Conselho de Administração do GPA e segundo maior acionista, tendo como missão a defesa intransigente do Grupo. Estando aqui, não medirei esforços para atingir esse objetivo. Tudo farei para que os nossos princípios e valores sejam respeitados.

Minha luta aqui sempre foi por crescimento, para participar de algo que fizesse história. O meu poder vem da minha capacidade física e mental e tive muito prazer em usar esse poder para o bem da companhia, para o bem de todos os nossos companheiros de trabalho e o do Brasil.

Não posso exigir que os novos comandantes o exerçam à minha maneira, mas, posso pedir que não esqueçam que esta empresa é uma empresa familiar. Não porque foi fundada e pertenceu a uma família, mas, porque é uma família para quem trabalha nela.

Posso pedir que conservem a humanidade, a gentileza, o respeito, o cuidado, a consideração por todos os que aqui, com o seu trabalho e dedicação, a mantem e proporcionam seu crescimento e eficiência. Peço que não esqueçam que dinheiro não é tudo e que amizade, amor, saúde e equilíbrio são fundamentais.

A minha fé em Deus me ajudou a chegar ate aqui. Procurei compartilhar com meus companheiros as bênçãos e iluminações que o Senhor me proporcionou.

No que depender de mim, vou continuar na defesa de tudo isso que nos fez grandes e dignos. Apesar de abalado pelos últimos acontecimentos, estou forte e sinto grande vontade de continuar melhorando como pessoa, progredindo como empresário e me aperfeiçoando como ser humano. De nada vale o poder se ele não for usado para o bem de todos.

Quero agradecer a todos que me ajudaram a construir esta bela história. Que a chama acesa por Valentim dos Santos Diniz continue a aquecer nossos corações e a ser uma estrela guia.

Que Deus nos ajude a nos manter no caminho do bem e da justiça.

Quero falar mais uma coisa para vocês. Principalmente aos meus amigos do Pão de Açúcar. Não encarem isso como despedida. Sempre digo que há três coisas que detesto: cebola, despertador e despedida. Não façam de hoje um dia de tristeza. Considerem toda a emoção desta transferência de controle como algo normal. Temos de acreditar que a vida continua, que a vida é bela, que o mais importante é saúde e que, com saúde e com força, a gente vai buscar o que quer. Encarem com confiança. Com fé em Deus, vamos em frente. Muito obrigado pela atenção e pelo carinho de todos.”

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